{"id":216,"date":"2021-01-08T19:43:29","date_gmt":"2021-01-08T19:43:29","guid":{"rendered":"https:\/\/tvminasgerais.com.br\/sitev1\/2021\/01\/08\/startup-companys-co-founder-talks-on-his-new-product\/"},"modified":"2021-01-12T23:35:01","modified_gmt":"2021-01-12T23:35:01","slug":"a-farofa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tvavozdoromeiro.com.br\/sitev1\/2021\/01\/08\/a-farofa\/","title":{"rendered":"A FAROFA"},"content":{"rendered":"\n<p>O Arnaldo era de Curitiba e fazia o curso de Medicina Veterin\u00e1ria. Tinha um sobrenome esquisito, de origem polonesa. Uma sopa de letrinhas. Nunca vou me lembrar da ordem certa. Kikovosky, koslovsky, krakopvoslk, kierilovsk, algo assim. Mas isso n\u00e3o interessa. O que interessa \u00e9 o que aconteceu com ele quando morava numa rep\u00fablica de estudantes, l\u00e1 em Alfenas. N\u00e3o me lembro bem se ele estava no terceiro ou no quarto per\u00edodo, s\u00f3 sei que era naquela \u00e9poca do entusiasmo do in\u00edcio da faculdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Por volta das dezoito horas e quinze minutos o Arnaldo parou sua Lambretta, uma esp\u00e9cie de jog ou motoneta, na porta da rep\u00fablica onde morava e se preparava para entrar quando um carro parou na rua e algu\u00e9m chamou seu nome. Era o R\u00f3bson, um colega de turma, que falou: \u201c\u00d4 Arnaldo, voc\u00ea j\u00e1 fez aquele trabalho das v\u00edsceras?\u201d. Arnaldo respondeu negativamente: \u201cN\u00e3o, por qu\u00ea?\u201d. O outro explicou: \u201c\u00c9 que um carro atropelou um cachorro ali na rua de baixo agora h\u00e1 pouco. Se voc\u00ea quiser tirar as v\u00edsceras, t\u00e1 na hora\u201d. O outro agradeceu: \u201cR\u00f3bson, eu lhe fico grato, cara! Mas eu passei o dia estudando para as provas e daqui a pouco, l\u00e1 pelas sete, vou voltar para estudar mais com a turma. Hoje n\u00e3o d\u00e1 pra pegar as v\u00edsceras. Mas eu te agrade\u00e7o pela informa\u00e7\u00e3o\u201d. R\u00f3bson partiu e Arnaldo dirigiu-se \u00e0 casa.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"710\" height=\"400\" src=\"https:\/\/tvminasgerais.com.br\/sitev1\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/visceras1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-416\" srcset=\"https:\/\/tvavozdoromeiro.com.br\/sitev1\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/visceras1.jpg 710w, https:\/\/tvavozdoromeiro.com.br\/sitev1\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/visceras1-300x169.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 710px) 100vw, 710px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Colocou a Lambretta na garagem e entrou. Pretendia comer alguma coisa e voltar para estudar mais um pouco com o seu grupo de estudos. Semana de provas era aquela loucura, n\u00e3o dava tempo para nada. Enquanto caminhava, a informa\u00e7\u00e3o do R\u00f3bson lhe veio \u00e0 cabe\u00e7a e ele achou que realmente era uma boa oportunidade. Seria uma preocupa\u00e7\u00e3o a menos. Resolveu que iria pegar as v\u00edsceras do cachorro atropelado e guardar no congelador. N\u00e3o gastaria mais do que uns quinze minutos, concluiu. Depois que terminassem as provas e a correria diminu\u00edsse, ele colocaria os \u00f3rg\u00e3os no formol, de acordo com as exig\u00eancias do professor da disciplina.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi at\u00e9 seu quarto, pegou uma sacolinha de supermercado, um par de luvas cir\u00fargicas, um bisturi, uma tesoura e saiu correndo. Acionou a partida da Lambreta e dirigiu-se ao lugar indicado pelo amigo. Em poucos minutos estava de volta com o produto da \u201ccirurgia\u201d.&nbsp; Ao entrar em casa foi direto para a cozinha. Abriu a geladeira e depositou no congelador as v\u00edsceras do pobre c\u00e3o falecido t\u00e3o tragicamente.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"409\" src=\"https:\/\/tvminasgerais.com.br\/sitev1\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/visceras.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-418\" srcset=\"https:\/\/tvavozdoromeiro.com.br\/sitev1\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/visceras.jpg 1024w, https:\/\/tvavozdoromeiro.com.br\/sitev1\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/visceras-300x120.jpg 300w, https:\/\/tvavozdoromeiro.com.br\/sitev1\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/visceras-768x307.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Glorinha, a empregada, estava junto ao fog\u00e3o de costas para ele. Enquanto mexia as panelas, distra\u00edda, ela assoviava baixinho acompanhado a m\u00fasica do Amado Batista que tocava no r\u00e1dio de pilha que ela carregava pra todo lado, num bolso do avental. Arnaldo falou bem alto para fazer-se ouvir: \u201cOi Glorinha, como \u00e9 que est\u00e1 o jantar?\u201d. A mo\u00e7a voltou-se meio assustada e respondeu: \u201cDesculpa, Seu Arnaldo, eu tava meio distra\u00edda. Mas a janta n\u00e3o demora, n\u00e3o. Eu t\u00f4 come\u00e7ando a fazer. Daqui uns trinta minutinhos t\u00e1 pronta\u201d. Arnaldo resolveu que n\u00e3o dava pra esperar: \u201cOlha Glorinha, eu n\u00e3o vou esperar, n\u00e3o. T\u00f4 com muita pressa hoje. Vou deixar pra jantar quando eu voltar. Por favor, pede para o pessoal deixar comida pra mim ou esgano um por um\u201d. Glorinha deu uma risadinha e balan\u00e7ou a cabe\u00e7a afirmativamente: \u201cPode deixar, Seu Arnaldo, eu falo, sim!\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois do banho r\u00e1pido, Arnaldo foi at\u00e9 o arm\u00e1rio da cozinha e pegou um pacote de biscoitos recheados que saiu mastigando. Antes de sair alertou a empregada outra vez: \u201cGlorinha, n\u00e3o se esque\u00e7a de avisar o pessoal pra deixar comida pra mim&#8230;\u201d. A mo\u00e7a respondeu l\u00e1 do seu posto junto ao fog\u00e3o: \u201cN\u00e3o esque\u00e7o, n\u00e3o, Seu Arnaldo!\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Passava da meia-noite quando Arnaldo estacionou a Lambreta na garagem e entrou em casa. O est\u00f4mago reclamava a falta do jantar e ele foi direto para a cozinha. As panelas estavam todas sobre o fog\u00e3o. Ele aproximou-se e destapou uma por uma. Todas vazias. Foi at\u00e9 a geladeira e l\u00e1 tamb\u00e9m n\u00e3o havia comida. \u201cOs desgra\u00e7ados comeram tudo!\u201d, concluiu. Pensou em acordar os colegas de rep\u00fablica para reclamar, mas achou melhor que n\u00e3o. Certamente iria perder o sono e poderia prejudicar o desempenho na prova da manh\u00e3 seguinte. Novamente foi at\u00e9 o arm\u00e1rio, pegou uns biscoitos, um p\u00e3o murcho e complementou o jantar com um copo de leite gelado. Foi para a cama meio revoltado com os colegas, mas o cansa\u00e7o falou mais alto. Logo estava dormindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Cinco dias depois, terminadas as provas, ao entrar em casa Arnaldo se lembrou das v\u00edsceras no congelador e resolveu acondicion\u00e1-las devidamente. Foi at\u00e9 o eletrodom\u00e9stico e abriu o congelador. N\u00e3o havia nada l\u00e1. \u201cQuem ser\u00e1 o safado que tirou daqui?\u201d, ele refletiu. Achou melhor perguntar para a empregada que assoviava baixinho enquanto arrumava a cozinha: \u201cGlorinha, voc\u00ea se lembra de um dia da semana passada que eu cheguei meio apressado e n\u00e3o pude esperar o jantar?\u201d. Ela pensou um pouquinho e respondeu: \u201cLembro, sim, Seu Arnaldo. Foi aquele dia que o pessoal comeu toda a comida e n\u00e3o deixou nada para o senhor. Eu bem que pedi pra eles&#8230;\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Arnaldo a interrompeu: \u201cPois \u00e9, Glorinha, naquele dia eu cheguei da rua com um pacote, uma sacolinha de supermercado, e coloquei no congelador. Por acaso voc\u00ea sabe quem tirou dali?\u201d. Ela franziu a testa antes de falar: \u201cUai, Seu Arnaldo, naquele dia eu procurei carne pra fazer na janta e n\u00e3o achei. A\u00ed eu olhei no congelador e vi aqueles mi\u00fados de porco. Tava tudo fresquinho, cheiroso. Ent\u00e3o eu peguei e fiz uma farofa. Ficou uma del\u00edcia! \u00c9 uma pena que eles n\u00e3o deixaram nada para o senhor&#8230;\u201d. O Arnaldo prendeu a respira\u00e7\u00e3o e pensou: \u201cGra\u00e7as a Deus! \u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Arnaldo era de Curitiba e fazia o curso de Medicina Veterin\u00e1ria. 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